STRESSE E O PACIENTE FELINO: BIOLOGIA DO COMPORTAMENTO (PARTE 2)

STRESSE E O PACIENTE FELINO: BIOLOGIA DO COMPORTAMENTO (PARTE 2)

Na atualidade, o estresse psicológico do paciente humano hospitalizado, bem como comportamentos idiossincrásicos durante o atendimento clínico é academicamente e publicamente discutido. Devido o impacto emocional e físico no paciente, unidades hospitalares oferecem acolhimento emocional através de práticas e instalações menos intimidantes. A agressão “… na hora de fazer não doeu!” é combatida através da conscientização e instrumentalização emocional para os profissionais da área médica. O comprometimento do processo para o acesso emocional e comunicação verbal é uma das falhas na prática médica. Quem nunca se incomodou da objetividade e distanciamento de alguns médicos teve a boa chance de ser sempre bem atendido. Os alicerces acadêmicos da prática da medicina interna felina são representados também pela blindagem emocional do
gato enquanto paciente.

O conceito catfriendly® incansavelmente divulgado pelas associações europeia e americana, promovem a conscientização e instrumentalização, também, ao médico veterinário ao atender o Felis silvestres catus. Impacto na cicatrização, taxa de mutogenicidade, tempo de internamento e muitos outros parâmetros foram reconhecidos para a condução clínica do paciente  humano e, também, no paciente felino. Além do acolhimento
emocional, as práticas de sociabilização de gatinhos durante a sua infância é a chave mestra para, no futuro, recebermos mais pacientes felinos emocionalmente estáveis. Tolerantes à prática mantida pelos veterinários para trazer o bem, os gatos semi e domiciliados receberão atendimento médico sem impacto indesejado em suas vidas. Durante as primeiras consultas, é imperativo que a experiência oferecida para o gatinho seja divertida e repleta de descobertas com recompensas emocionalmente positivas. Uma vareta com penas na extremidade tem um potencial de preparação emocional que, na minha opinião, assemelham-se em importância com programas de blindagem imunológica. Outra ferramenta interessante é introduzir frequentemente e delicadamente um pouco de alimento úmido na região de cavidade oral possibilitando a manipulação da mesma região futuramente. Evitar aplicação de volume importante de álcool etílico 70% na assepsia para vacina, a mudança abruta de sensação térmica pode ser assustadora. Preocupa-nos, o impacto perturbador da experiencia emocional de um gato em jejum prolongado, contido inadequadamente e próximo de muitas pessoas e animais ameaçados experimentando emoções negativas e sua comunicação efetiva entre animais da mesma espécie.

Campanhas de esterilizações e vacinações serão sempre o alicerce para o bem-estar desses animais, mas muitos tornam-se reativos ou, mesmo, inseguros em seus cotidianos após o serviço médico. Assim, médicos veterinários e demais amantes de gatos devem atentarem-se ao importante e pouco lembrado impacto emocional do individuo enquanto paciente. Lembre-se que não somente os pacientes humanos merecem acolhimento emocional. Um mutirão para uma medicina veterinária acolhedora já foi iniciado há décadas, mas ainda não protege integralmente os nossos pacientes.

Os gatos não foram domesticados. Permitimos através de uma relação de cooperativismo que os gatos entrassem nos nossos lares, mas não mudamos seus mecanismos neurobiológicos. Assim, as reações aos estímulos ambientais que observamos e registramos são muito semelhantes àqueles exibidos há anos. Muitos gatos através de estímulos oferecidos no período de sociabilização, tornam-se mais tolerantes à prática médica.

Essa seria uma justificativa para as diferentes apresentações de perfis emocionais dos pacientes felinos diante os desafios do
cotidiano nas grandes cidades. Segundo a Professora Bonnie Beaver , o comportamento dos gatos hoje é resultado da forma como nos relacionamos com eles até então. Sem tentativas de modificações comportamentais e físicas, os gatos não foram submetidos à nenhuma tentativa para a domesticação. Espaços físicos e sensoriais incompatíveis com as possibilidades de descobertas, motivações para brincadeiras ou mesmo a tranquilidade da ausência de ameaças físicas e emocionais. Frente às situações ameaçadoras, os gatos reagem de forma importante e isso deve ser considerado sempre um capítulo importante no manejo clínico do paciente felino. Muitos pacientes felinos são ameaçados por estratégias diagnósticas e terapêuticas, já que não foram preparados emocionalmente para essas situações bastante regadas de ameaças físicas e sensoriais. Essa variabilidade emocional deve ser um parâmetro para a individualização das abordagens e decisões médicas. Um gato não poderá ser candidato à um procedimento clínico ou que poderá ter impactos importantes na forma como reagirá aos estímulos ambientais no futuro. O paciente seja protegido da dor, ansiedade e/ou frustração para que sejam curados sem impactos emocionais.

 

Escrito por
Carlos Gabriel Dias
(cgabrielvet@hotmail.com) Mestre e Dr. em Ciências Veterinárias

Waldemat Tavarez
(waldemarvet@hotmail.com)
Mestrado de Diagnóstico Avançado em Medicina Veterinária

 

Sócios da The Cat from Ipanema