PERSISTÊNCIA DO DUCTO ARTERIOSO EM CÃES

M.V. Ms. Rodrigo Francisco
Prof. Dr. Ronaldo Jun Yamato

 

As cardiopatias congênitas constituem as principais causas de morbidade e mortalidade cardíaca nos animais jovens, e podem ser causadas por fatores genéticos, toxicológicos, nutricionais, infecciosos, ambientais e farmacológicos.

A persistência do ducto arterioso (PDA) é a anormalidade cardiovascular congênita mais comumente encontrada em cães, sendo observado em raças como Maltês, Chihuahua, Pastor Alemão, Pastor de Shetland, Yorkshire Terrier, Cavalier King Charles Spaniel, Springer Spaniel e Spitz Alemão, sendo as fêmeas são mais predispostas. O PDA é raramente encontrado em felinos.

O ducto arterioso é um vaso originado do sexto arco aórtico esquerdo e que, durante a vida fetal, desvia o sangue da artéria pulmonar para a artéria aorta, obliterando-se momentos após o nascimento, passando dessa forma a ser chamado de ligamento arterioso. A falha na oclusão deste ducto é o que caracteriza a PDA, e quando o ducto permanece aberto após o nascimento e há desvio significativo de sangue, ocorre diferença de pressão, implicando em desvio de sangue da aorta para artéria pulmonar, misturando o sangue arterial com o sangue venoso (shunt esquerda-direita). Este desvio faz com que o sangue retorne a circulação pulmonar e em seguida ao átrio e ventrículo esquerdos, ocasionando dessa forma a sobrecarga atrioventricular esquerda e consequente insuficiência cardíaca congestiva esquerda (ICCE).

Em alguns pacientes com PDA, a resistência pulmonar e a pressão na artéria pulmonar se eleva e o volume de sangue desviado da esquerda para a direita diminui. Caso a pressão pulmonar se iguale a pressão aórtica, o volume de sangue desviado é muito pequeno. Se a pressão do coração e do pulmão ultrapassarem a circulação sistêmica, o sangue não oxigenado dos pulmões passa a fluir para aorta, caracterizando o desvio reverso.

A PDA é subdivida em PDA clássico, quando o fluxo parte da aorta e chega a artéria pulmonar, e em PDA reverso, resultado da reversão do fluxo do PDA clássico, assim, o fluxo transcorre do tronco da artéria pulmonar em sentido à artéria aorta.

Por meio dos exames físicos e complementares é possível classificar a PDA clínica e anatomicamente. Nos tipos 1 e 2 ocorre desvio de sangue da esquerda para direita de maneira assintomática, porém no tipo 2 já pode ser visualizado aumento de área cardíaca esquerda. Na PDA do tipo 3a, o ducto é amplo porém ainda não se observa sinais de ICCE, enquanto no tipo 3b o animal já apresenta sinais de ICCE. Na PDA tipo 4 o ducto é amplo e o animal apresenta hipertensão pulmonar por isso o desvio de sangue ocorre no sentido da direita para esquerda.

Algumas das principais manifestações clínicas dos pacientes com PDA são sincope, fraqueza de membros pélvicos durante o exercício, incoordenação motora e convulsões, possivelmente pela hiperviscosidade do sangue devido a policitemia. A taquipnéia e dispneia também podem ocorrer devido a ICCE, mas muitas vezes, os cães são inicialmente assintomáticos.

Sinais clínicos como pulso hipercinético e o sopro popularmente denominado de “sopro em maquinaria” é patognomônico da doença, podendo ser mais audível em região de base cardíaca esquerda, podendo repercutir em outros focos de ausculta cardíaca.

Alterações laboratoriais não são encontradas no caso de PDA clássica. No entanto, quando o caso se refere a PDA reverso, é comum a presença de policitemia em reposta à hipoxemia crônica.

Os principais achados radiográficos de PDA não são específicos para tal doença, porém algumas alterações podem ser observadas. No PDA clássico pode-se observar dilatação do tronco da artéria pulmonar, hipervascularização pulmonar, aumento ventricular esquerdo, dilatação dos vasos pulmonares e edema pulmonar. Já os achados radiográficos no PDA reverso restringem se a dilatação do tronco pulmonar e aumento de áreas correspondentes as câmaras cardíacas direitas.

Ao exame eletrocardiográfico, as alterações também não são específicas para a PDA, mas a taquicardia sinusal, o aumento atrial esquerdo, os complexos atriais prematuros ou complexos ventriculares prematuros e em casos mais graves, a fibrilação atrial, podem ser observados em pacientes com PDA.

O exame ecocardiográfico fornece o diagnóstico definitivo para a PDA, podendo visibilizar o aumento atrial esquerdo, dilatação e hipertrofia ventricular esquerda, fluxo contínuo no tronco da artéria pulmonar e o diâmetro e o comprimento do ducto. Com o ecocardiograma é possível identificar a direção do fluxo através do ducto arterioso.

A angiografia é o exame complementar considerado o padrão ouro para se determinar a morfologia e as dimensões da PDA, fornecendo as informações necessárias para a correção cirúrgica de oclusão por cateterismo.

Na PDA clássica o tratamento de eleição é a correção cirúrgica em animais com até 1 ano de idade sendo recomendado em todos os casos com desvio da esquerda para direita. O prognóstico é favorável após a correção cirúrgica.

A técnica cirúrgica mais comumente usada é a toracotomia com posterior ligadura do ducto. Porém, atualmente, tem se utilizado métodos pouco invasivos com o objetivo de oclusão do ducto arterioso. Materiais como Amplatzer Canine Occluder ® ou Coils são inseridos através da cateterização de artéria femoral até a região do ducto, e fixados com objetivo de obstrução do mesmo.

Dependendo da idade do animal e do grau da cardiomegalia, os pacientes podem apresentar-se clinicamente normais no período pós cirúrgico e o tamanho do coração pode normalizar. Se a valva mitral for estruturalmente normal, a regurgitação mitral e o consequente sopro sistólico se resolvem após a ligadura ou oclusão do ducto. No entanto alguns animais podem não apresentar reversão das alterações estruturais cardíacas após o procedimento cirúrgico, pois a sobrecarga de volume nas câmaras cardíacas ocasionou remodelamento irreversível.

Nos casos de PDA reverso com policitemia secundária, o tratamento consiste em repouso forçado, limitação do exercício, além da manutenção do hematócrito entre 62-68%. Nestes casos a intervenção cirúrgica não é recomendada devido ao ducto arterioso estar servindo como um escape para a artéria pulmonar e, se for obstruído, pode gerar uma grave hipertensão promovendo a dilatação das estruturas, aumentando a tensão, o risco de rompimento do ducto e consequente hemorragia irreversível ocasionado o óbito do paciente.

Vale ressaltar que apesar do tratamento cirúrgico ser altamente viável e com alto índice de sucesso, sua realização requer infraestrutura e profissionais capacitados.