INOVAÇÃO X LEGISLAÇÃO o desafio dos novos formatos de empresas veterinárias

escompromisso, abstração e sedução, características sempre relacionadas aos gatos domésticos (Felis silvestris catus). Considerados os bons vivants do reino animal do homem moderno, os gatos são  tradicionalmente lembrados por serem contemplativos e despreocupados.

Atuando há alguns anos na área de Gestão e Marketing em todo o Brasil e em mais sete países, tenho tido a oportunidade de conviver com realidades extremamente distintas nos cenários médicos veterinários desses locais e ainda com posicionamentos empresariais bem definidos com os colegas profissionais que são a força motriz desses mercados.

Um ponto que surge sempre como um fato a ser destacado em meus cursos e palestras é a enorme capacidade criativa do profissional de Medicina Veterinária que vem se desenvolvendo nos últimos 20 anos, em especial no Brasil, onde por ser minha base, tenho a maior amostra estatística dessa mudança de postura comportamental no egresso das universidades

 

Costumo dizer que o potencial criativo do Médico Veterinário para criar novos formatos de negócios onde possam executar o Ato Médico Veterinário é de uma amplitude e velocidade imensas, porém se chocam com a lenta e formatada, compartimentada legislação brasileira, que mesmo tendo sido alterada repetidas vezes à partir de 2010, ainda é altamente regulatória (fruto do forte poder do Estado na Economia e Sociedade como um todo), atrasada, discriminatória e um obstáculo no caminho da inovação consciente e profissional.

Devemos ainda lembrar que o profissional Médico Veterinário é membro da Sociedade, e é essa Sociedade que também se transforma e evolui em vários aspectos, especialmente na busca por uma oferta diferenciada de produtos e serviços que atendam não somente suas necessidades, mas agora que atendam e satisfaçam seus desejos, e em muito pouco tempo que promovam novas EXPERIÊNCIAS em cada contato com seus prestadores de serviços… e como devemos sempre lembrar… Somos todos prestadores de serviços!

 

E que necessidades, desejos e experiências seriam essas Sergio?

Quando pensamos em necessidades que um proprietário de um animal de estimação possa ter focamos basicamente na questão do bem-estar animal a ser ofertado pelos profissionais e seus estabelecimentos. Quando pensamos em desejo, já associamos um diferencial, uma forma um pouco mais refinada, exclusiva e com VALOR AGREGADO nas ofertas das necessidades aos clientes. Um exemplo claro dessa transformação são os an- tigos Canis de Hospedagem que surgem no decorrer dos anos 80 no Brasil.

Por muito tempo era muito comum que as pessoas viajassem e deixassem seus cães “hospedados” dentro das clínicas veterinária contrariando os atuais conceitos de bem-estar e risco de biossegurança inerente a este tipo de ambiente que não era planejado para “hospedar” animais e sim cuidar, tratar, internar, ou seja, atos médicos veterinários. Surgem então os canis de hospedagem que nada mais eram do que baias de cimento, com grades onde os animais ficavam confinados pelo período determinado, recebendo água e comida.

Hoje, o conceito de Resort para Animais de Estimação é INOVAÇÃO X LEGISLAÇÃO

 

O desafio dos novos formatos de empresas veterinárias uma realidade bem difundida no mercado pet brasileiro onde os proprietários podem ter acesso a locais com serviços como passeios, banhos de piscina, música para acalmar os cães, banhos de estética, áreas de lazer, paisagismo planejado, serviço veterinário de emergência e grandes baias confortáveis com luxo e conforto. No que diz respeito às clínicas veterinárias hoje defendo o conceito da Ambientação Hospitalar como diferencial de percepção de valor por parte do cliente do ato médico veterinário e do profissional que o executa.

Esse conceito gera a mudança de comportamento, tanto da equipe quanto do cliente, que encontra um ambiente de características diferenciadas para perceber o nível de profissionalismo do local.

 

Mas em função de nossa rígida legislação, inovar nesse segmento deve se manter debaixo do manto da Resolução do Conselho Federal de Medicina Veterinária do Brasil, que autoriza apenas três formatos comerciais de estabelecimentos de ato médico veterinário, a saber, do menor para o maior em termos de complexidade:

  • Consultório
  • Clínica Veterinária
  • Hospital Veterinário

Em comparação com outros países onde trabalho, esse é nosso principal desafio! A Estruturação de nossos formatos em tão poucas opções. Por exemplo, não é permitido a Clínica Veterinária Volante em nosso país! Somente Ambulância Veterinária desde que esta esteja devidamente registrada como serviço pertencente à uma Clínica com registro no Conselho de Veterinária de sua Região.

 

Outro grande desafio, é criar estabelecimentos de Especialidades Veterinárias como Acupuntura e Fisioterapia por exemplo, que automaticamente quando se inscreve como “clínica” a referida RES 1015 exige um Centro Cirúrgico entre outras exigências. Um completo nonsense, pois exigir Centro Cirúrgico para um serviço de Reabilitação Animal é no mínimo, inusitado. Um outro exemplo dos “tempos modernos” é o Conceito de Coworking, que atende várias outras profissões, mas em função de nosso Código de Ética Profissional, é praticamente inviável em função de questões de interpretação de Responsabilidade Profissional. Esse conceito seria de extrema importância para redução de custos dos espaços veterinários, mas ainda enfrenta esse bloqueio institucional por parte de nosso órgão Fiscalizador, que busca somente aumentar a arrecadação de taxas a cada formato já definido.

No Brasil, apesar da existência dos multiformatos de negócios (Clínica + Pet shop + Salão de Banho e Tosa), as exigências se tornam cada vez maiores, e essa intervenção faz com que a criatividade surja como uma alternativa para buscar o sucesso empresarial.  O que acontece então?

Uma separação entre esses componentes desses formatos em busca de uma diminuição de exigências. Nota-se um crescimento do número de veterinários que passa a fechar o setor de banho e tosa de seus negócios e focam única e exclusivamente em serviços veterinários, reduzindo as demandas regulatórias.

 

Podemos chamar isso de uma “inovação forçada” mas direcionada a uma busca de redução de tributos e obrigações, e não a inovação propriamente dita baseada em visão e projetos diferenciados.

Em países como Colômbia, Argentina e Uruguai, não existem Códigos de Conduta tão restritos como no Brasil e percebo que os formatos veterinários são extremamente diferenciados, porém ao mesmo tempo falta um direcionamento a conceitos como a citada Ambientação Hospitalar às vezes, ocorrendo esse “choque cultural-técnico” quando me deparo com situações como por exemplo o uso de materiais como madeira por exemplo, que é altamente proibido em setores veterinários no Brasil e nesses países não parece haver restrição sanitária para sua aplicação em setores críticos dos estabelecimentos veterinários.

Encontrar o meio termo entre a regulamentação obstrutiva e a normatização com foco na orientação do mercado é o grande desafio que encontramos hoje em todos os países onde tenho a grata oportunidade de trabalhar.

Em Portugal observei uma maior liberalidade nesse quesito Inovação x Legislação em várias oportunidades e nos formatos distintos que visitei, o que pode modificar um pouco com o crescimento do número de profissionais nos próximos anos.

 

No Brasil temos o criminoso, corrupto e absurdo Ministério da Educação liberando cursos de Medicina Veterinária, totalizando já na casa do 360 Cursos, o que joga indiscriminadamente no mercado profissionais que, dentro desse cenário de competição, “inovam” por necessidade, muitas vezes ignorando a legislação, burlando as regras, e atuando em estabelecimentos irregulares, em estrutura físicas irregulares e sem registro; o que

gera um cenário de insatisfação geral e cobrança por parte dos veterinários legalizados junto ao nosso Conselho Profissional para que algo seja feito.

Um dos caminhos que acredito ser nossa redenção para os próximos anos, seria uma revisão da legislação que versa sobre os formatos das empresas veterinárias, feita por uma junta de trabalho composta por profissionais legisladores que REALMENTE conheçam o mercado de pequenos animais. Um revisão que atenda as velozes transformações dos desejos da Sociedade consumidora de produtos e serviços veterinários, que a cada dia busca por EXPERIÊNCIAS, o que só pode ser conseguido com um somatório de percepções, dentre elas, a percepção visual que é feita através do contato com o local onde é feito o ato médico veterinário, ou seja, onde a inovação do formato pode ser enfim, avaliada.

O equilíbrio entre a forte intervenção dos órgãos regulatórios e a inovação sustentável será a nossa jornada nos próximos anos! Vamos juntos? nesse período citado acima.